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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Até amanhã



Até amanhã
Sei agora como nasceu a alegria,

...como nasce o vento entre barcos de papel,

como nasce a água ou o amor

quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma

à roda do corpo que desperta,

sílaba espessa, beijo acumulado,

amanhecer de pássaros no sangue.

 
É subitamente um grito,

um grito apertado nos dentes,

galope de cavalos num horizonte

onde o mar é diurno e sem palavras.

 
Falei de tudo quanto amei.

De coisas que te dou

para que tu as ames comigo:

a juventude, o vento e as areias.

 
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 11 de abril de 2011

...texturas


- Faz de conta que sou choupo.

- Eu serei pássaro louco,pássaro voando

e voando sobre ti vezes sem conta.


- Faz de conta, faz de conta.

 
Eugénio de Andrade


sábado, 4 de setembro de 2010

...de ramo em ramo








Subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Esta rosa de alegria


Nem os sonhos sabem que dizer
a esta rosa de alegria,
aberta nas minhas mãos
ou nos cabelos do dia.

O que sonhei é só água,
água só, roxa de frio.
Nenhuma rosa cabe nesta mágoa.
Dai-me a sombra de um navio.

Eugénio de Andrade

domingo, 13 de junho de 2010

Janelas antigas


Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.

sábado, 8 de maio de 2010

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

É urgente permanecer.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Outono-II

O vento que às vezes tira algo que amamos é o mesmo que nos traz algo que aprendemos a amar...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Nos meus versos chamar-te-ei amor!



Tu já tinhas um nome,
e eu não sei se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor!


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Último dia de Verão


Talvez nem seja um tordo. Um pássaro
cantava. Seria o último
desse verão. A própria luz

não ajudava: não era barco
de manhã nem brisa ao fim da tarde.
Talvez o anjo do poema

pudesse em seu lugar subir aos ramos
e cantar. Mas os anjos
são tão distraídos! Deles não há

nada a esperar, a não ser fogo
de palha. Talvez nem seja um tordo.
O seu canto, só vibração do ar.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

em redor é tudo teu...



Cantas.
E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.

Eugénio de Andrade


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um, dois, três


Um, dois, três.
lá vai outra vez
o gato maltês
a correr atrás
da franga pedrês,
talvez a mordesse
apenas no pé,
o sítio ao certo
não sei bem qual é
(quatro, cinco, seis),
ou só lhe arranhasse
a ponta da crista,
e talvez nem isso,
seria só susto,
ou nem sequer mesmo
foi susto nenhum:
sete, oito, nove,
para dez falta um.

Eugénio de Andrade

domingo, 26 de julho de 2009

É um silêncio sem ti


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Serão palavras


Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens.

Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração.

Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de junho de 2009

As mãos e os frutos


Em cada fruto a morte amadurece,
deixando inteira, por legado,
uma semente virgem que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 11 de junho de 2009

como é que faria o seu mel?


«Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação de trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel

Eugénio de Andrade

sábado, 6 de junho de 2009

Frutos



Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Faz de Conta



- Faz de conta que sou abelha.
- Eu serei a flor mais bela.
- Faz de conta que sou cardo.
- Eu serei somente orvalho.
- Faz de conta que sou potro.
- Eu serei sombra em Agosto.
- Faz de conta que sou choupo.
- Eu serei pássaro louco,
pássaro voando e voando
sobre ti vezes sem conta.
- Faz de conta, faz de conta.


Eugénio de Andrade

sábado, 16 de maio de 2009

Tenho o nome de uma flor


Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga
ou algum pomar que atravessei.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Somos como árvores


Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.

Eugénio de Andrade